domingo, 3 de maio de 2015

teu



não me arrancam desta estesia

do meu estado de poesia

quando grudo meus ouvidos

nos mistérios da sua voz.


não me arrancam da canção Tua

do seu lado índia erudita encenação...


deste fingir artístico Pessoa

que me encolhe frente ao palco

me põe em paixões e eu vou.


suditamente fã à luz

nascida da mulher que me rasga

nesse meu farejar

o som da sua garganta.


Iyá Stella, 90 anos!



Todo caçador é senhor da astúcia. Ele penetra o mundo externo pelo olhar, sua maior habilidade é a observação. E como grande observador, o caçador é agressivamente desconfiado. Mas é doce também. E sábio. Provedor elegante dos lares e da comunidade. Nasce para reinar. Tem a beleza como domínio. É azul-turquesa. Ou todo verdinho como o lugar que ele habita. Na Bahia, nosso maior caçador é uma mulher. Uma senhora. Uma iyalorixá.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

O pássaro



tudo intervala

pra ouvi-la

ou pra vê-la.


e ela segue livre

alvissareira distante

dona do seu nome,


pássaro matinal

num voo eterno.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Billie Holiday: maior que a lenda é o canto




A voz é sem tempo. Entrecortes da dor, beleza, nome, amor. É cor e silêncio. Ruídos que invadem para negar indiferenças e instalam-se, violentamente, em harmonias que desagregam e espalham-se do ouvido para o todo do corpo que reage feito sexo. Em síntese: é um assombro. E corriqueira genialidade de um canto prostibular, mas sagrado.
Uma história inteira no feminino de uma mulher que se camuflava de homem para ser músico e reinventou a canção em sibilos ruídos tons meio saxofone meio trompete muito ar e muitas drogas na voz sem igual do jazz norte-americano.
Eleanora  Fagan nasceu negra e pobre no centro do racismo dos Estados Unidos, na Filadélfia, a 7 de abril de 1915. Eternizou-se como Billie Holiday: a mais representativa cantora do século XX em todo mundo e hoje, em sonora presença, faz 100 anos.
O músico Billie mergulhou em canções que traduziam a sua força criativa como reflexo da dor que sentia ou inventava para cantar daquele jeito. Aliás, deste jeito, pois ela continua vivíssima ainda a embalar os amantes das grandes vozes que fizeram o século XX e persistem no XXI.
Uma história de desvelo narrada como elemento fundante da ordem segregacionista estadunidense, e piorada pelo tormento de quem se sabia um gênio, mas bem no fundo, não se achava merecedora do talento que carregou até a morte, no ano de 1959, com apenas 44 anos de idade.
Um século da voz que nunca precisou de extensão, que foi pura sutileza sonora em desafios sentimentais, que imprimiu seu gênio frente a desgastante vida que a tragou e se consagrou com o humano instrumento que deve ser considerado a voz do século XX.
Seus discos, até os mais inferiores tecnicamente, são preciosas peças que contam a história do negro criando e vivendo para além do legado da escravidão. Billie é o grande exemplo de que a melhor música popular do mundo é negra. E a diáspora africana serviu para espraiar os múltiplos tons da civilidade erguida pela parte negra daquele continente.
Ela, Billie Holiday, a Lady Day do mago Lester Young, músico parceiro monstruoso, é o advento canção em misturas de possibilidades estéticas sem perder o esteio dado pelo jazz dos músicos negros estadunidenses. Ela é a contradição. Negada e adorada por todos os lados – fazedora de imagens históricas gritantes, como a da sua execução de Strange Fruit -, Billie morreu em profunda desgraça para depois, através da história e do seu legado artístico, se eternizar como mito e como a dona do melhor canto popular em todo mundo. Em todos os tempos.
A presença marcante da linda mulher, ora melancolia ora baixa languidez ora rara sedução… A voz que prenunciou o domínio musical dos negros em seu país, que bagunçou o racismo, que fez protesto sem querer, que quebrou regras internas do seu convívio entre os negros, que namorou negros e brancos, homens e mulheres, se drogou até a destruição numa dor maior que qualquer invenção.
A diva mítica foi um gênio atormentado, espezinhado pelas duras narrativas de sua vida. Mas, para fora de toda mítica, toda narrativa é vã sem a audição do canto intenso desta cantora.
Celebrá-la, mais que tudo, é simplesmente ouvi-la e imaginá-la estática, dura, de preto num palco sem luz, álcool perfumando o ar, e sua voz dramática desenhando os sentimentos mais perversos que fazem doer a humanidade.
Billie se emite aqui neste poema:
entrecortes de luz e sombra,
canto que amanhace
de noites insones…

a voz de um século
num canto atemporal…

beleza sem precedentes
numa fresta rude memória

o desenho sonoro do sax.

mulher negríssima
perante toda a criatividade.

transcurso excepcional
do talento desalento
explodindo melancolia no mundo.

o canto navalha de muitos cortes
na voz de músico dela:

o jazz Billie Holiday.

Billie em Crazy He Calls Me


terça-feira, 7 de abril de 2015

Billie Holiday faz 100 anos!





entrecortes de luz e sombra,
canto que amanhace
de noites insones...

a voz de um século
num canto atemporal...

beleza sem precedentes
numa fresta rude memória

o desenho sonoro do sax.

mulher negríssima
perante toda a criatividade.

transcurso excepcional
do talento desalento
explodindo melancolia no mundo.

o canto navalha de muitos cortes
na voz de músico dela:

o jazz Billie Holiday.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Do temor



eis que temo.

e temo por acreditar demais.

barulho insuportável da esperança

que me acorda toda manhã

entre risos e dores, cores e

meu íntimo mais obscuro.


temo.

nesta vida que enceno

desconverso e confesso

ainda que pura solidão

adoro me saber vivo.


e entrever minha escrita

denúncia grito de socorro

oração ao mar

rasgo político aceno

anti-modelos, erro.

reverência ao que amo.


silêncio...


e esperança sem saber

no que como caminhar.

meu lugar

sou erradicado em salvador

projetado para o rio

a nascer em qualquer lugar.

sábado, 14 de março de 2015

Para Stella Maris



porque toca meu coração

e em miragem acho que

ouço sereia e canção...


mas não,


eu a inventei

como inventa o ar o voo

o pássaro...


seu canto me é invenção

celebração das ondas batendo

em pedras e areia


sutil e gigante

sem carência de ornamentos

só letra e música


e o sentimento

desta mulher

filha de Iemanjá!


Pela poesia





um instante em mim
que me dura a vida

lava meu semblante
me acompanhando
pelo mundo

num voo profundo
me são asas.

salvaguarda-me o sentido
de eu ter morada...

de alguma forma neste planeta
em letras azuis e verdes
no escrito de um livro d'água

eu pertenço

à Baía de Todos os Santos .


P.S: neste dia, 14 de março, viva a POESIA viva da Baía da minha cidade