quinta-feira, 17 de julho de 2014

do que não houve

queria que fosse bem tarde... bem desgaste do tempo negando. fosse maior que a dura saudade e sem retorno do sol... fosse inteira vida em segundos e acabasse sem a ideia de acabar. fosse: intervalos entre a falta de sorte...dois corpos bem separados localizados no exíguo espaço do desencontro...falta de nome e falta de transporte...o medo matando... todo o tempo do que não houve.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Amor sempre

É melhor amar, gostar, querer bem... Isso de amor revela o mais prazeroso sentido da vida; os sentimentos contrários mobilizam, mas desgastam... Quem aprende amar, aprende a se defender com ternura e alegria.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Da síntese

O verdadeiro lance é que eu continuo um grande sonhador, cheio de tarefas para cumprir e ideais de beleza para realizar!

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Do alheamento



Para ver...
e ter...
no alheamento
de mim mesmo

fazendo sentido
sem esconderijo

como tem que ser
entre águas e matas

tão perto daqui.

Oração do dia



Que eu seja livre o suficiente para não fazer sentido.

Que eu tome conta de mim certo de que comigo sempre contarei.

Que eu tenha coragem para dizer não e hombridade para sempre agradecer.

Sabedoria para lidar com a maldade do outro e força para me apartar da minha. 


Discernimento, meu Deus, para escolher as companhias.

E ser como me escolhi para ser ao longo de 44 anos...

Que eu tenha alegria.

Que saiba do meu tamanho neste mundo.

E me comunique sem a ânsia do sucesso

E fora dos exageros de quem se rasga por celebridade.

Eu quero paz e sossegar no colo de alguém

Sem me tornar escravo de ninguém

E sem escravizar a quem eu amo.

De novo: que eu tenha coragem e assim,

Como aqui, eu exerça a minha comunicação

E me proteja da perversidade dos religiosos e dos ateus.

Que o amor que vinga no meu peito me seja norte

E eu tenha hora para concordar e hora para discordar.

Que seja eu inteiro e certeiro para realizar os sonhos

Que me convencem a estar nesta vida.

Entre Deus, Anjos e Orixás

E as Águas da Mãe e do Pai

Que sustentam minha existência.

frida kahlo



algo pra ser que deriva força faz pergunta pinta sol retalha afasta encerra mente chove vibra chora méxico fêmea gay bicho vulva resposta esperma coragem feio dança cursi arde lindo manis frieda novia flapper madonna homem história morre alta vive morte alegria partida kahlo.

domingo, 22 de junho de 2014

Quintais do Brasil de Maria Bethânia



É mês de junho no país que festeja Santo Antônio, São João e São Pedro. País onde nasceu Maria Bethânia, a cantora. Neste mesmo mês em que ela nasceu, e que completa 68 anos, Bethânia nos presenteia com seu mais novo trabalho: o CD Meus Quintais, saindo pela gravadora carioca Biscoito Fino.

Tem que se fazer 49 anos de carreira, não ter medo de ser o que se escolheu ser, manter a coerência artística sem evitar riscos, mas baseando-se nos caminhos estéticos eleitos pelo desejo de expressão, para poder oferecer ao país um CD que desenha a atmosfera da infância, os fundos da casa interiorana, louvando os caboclos, as tradições indígenas reinventadas nesse tempo, mas apagadas dos cenários midiáticos pelas cruéis demandas urbanas.

A mulher aprimorou o canto, à quase perfeição, para brincar com sons e palavras a favor de imagens que devassam a simplicidade, nos mostrando um Brasil positivo que insistimos, por burrice existencial, fingir esquecer porque recupera o indígena na construção desta civilização.

Meus Quintais é um primor em lítero-musicalidade, mas, melhor que isso, é um serviço ao índio, aos caboclos nortistas, com tempero da literatura (traz texto de Clarice Lispector), brincadeira e coragem da artista que se eterniza fazendo, nos últimos trabalhos, uma espécie de antropologia veiculada pela indústria do audiovisual.

A cantora tribaliza o Brasil, arregimenta talentos como Adriana Calcanhotto, Roque Ferreira, Dori Caymmi, Paulo César Pinheiro, para espalhar o que é mais simples e está contido no mais complexo, misturando aspectos de sua infância com a sua atual maturidade, compondo uma narrativa sonora, alicerçada na forma canção, onde o mito e o vivido remontam o sentido de se sentir saudade – a que, no caso da cantora, é a mais legítima: sua falecida mãe, dona Canô.

O disco é um reflexo no espelho: uma senhora de 68 anos, a noticiar os feitos do tempo e a redesenhar ontologias do brasileiro, a caminhar por uma discursiva trajetória que nos aquece de música, de poesia, sem deixar olhares históricos e socioantropológicos de fora.

Marlon Marcos é jornalista e antropólogo   email:  ogunte21@yahoo.com.br

(Publicado no Jornal A Tarde, em 21 de junho de 2014, Opinião, p. 3)

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Não

sono em suspensão
e eu, atoamente, aqui
lavrado em autocarinho
rabiscando não
a favor da arte final.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Para Chico, 70 anos!



Meu doce Chico,
um grande dia de aniversário para você
e a sua música e a sua poesia
ensolarando ainda mais os dias brasileiros
e às noites: a valsinha da emoção
encontrando o amor.

Maio - A perigosa Iara





.Ao cair de todas as tardes, a Yara, que mora no fundo das águas, surge de dentro delas, magnífica. Com flores aquáticas enfeita então os cabelos negros e brinca com os peixinhos de escapole-escapole. Mas no mês de maio ela aparece ao pôr-do-sol para arranjar noivo.

As mães se preocupam com seus filhos varões, sabedoras de que a Yara quer noivos. Mas para os filhos, Yara é a tentação da aventura, pois há rapazes que gostam de perigo.

À medida que a Yara canta, mais inquietos e atraídos ficam os moços, que, no entanto, não ousam se arriscar.

Sim, mas houve um dia um Tapuia sonhador e arrojado. Pensativamente estava pescando e esqueceu-se de que o dia estava acabando e que as águas já se amansavam. Foi quando pensou: acho que estou tendo uma ilusão. Porque a morena Yara, de olhos pretos e faiscantes, erguera-se das águas. O Tapuia teve o medo que todo o mundo tem das sereias arriscadas — largou a canoa e correu a abrigar-se na taba. Mas de que adiantava fugir, se o feitiço da Flor das Águas já o enovelara todo? Lembrava-se do fascínio de seu cantarolar e sofria de saudade. A mãe do Tapuia adivinhara o que acontecia com o filho: examinava-o e via nos seus olhos a marca da fingida sereia.

Enquanto isso, Yara, confiante no seu encanto, esperava que o índio tivesse coragem de casar-se com ela. Pois — ainda nesse mês de florido e perfumado maio — o índio fugiu da taba e de seu povo, entrou de canoa no rio. E ficou esperando de coração trêmulo.

Então — então a Yara veio vindo devagar, devagar, abriu os lábios úmidos e cantou suave a sua vitória, pois já sabia que arrastaria o Tapuia para o fundo do rio.

Os dois mergulharam e advinha-se que houve festa no profundo das águas.

As águas estavam de superfície tranqüila como se nada tivesse acontecido. De tardinha, aparecia a morena das águas a se enfeitar com rosas e jasmins.

Porque um só noivo, ao que parece, não lhe bastava.


Esta história não admite brincadeiras. Que se cuidem certos homens.

CLARICE LISPECTOR