sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Dos mistérios



Talvez os mistérios dos conceitos me sejam mais úteis do que suas revelações.

***

intervalando meu pensamento

com os ardores da alegria.

Era assim,


era assim,

idílio e litígio

lenda e cotidiano,

falcatruas sem plano,

leitura chinfrim...

alvoroço
cadafalso
calabouço

banalidades...

era assim,

destarte

a palavra me engoliu

nos termos da amizade

“Todos os dias, quando acordo, vou correndo tirar a poeira da palavra amor..."

CL

É para sarar os instantes doídos de solidão, refrescar a mente com a presença bacana, fazer o querido sentir carinho, abraçar com palavras, esperando abraçar de corpo e alma e verdade... Abraçar em silêncio e sem tempo e sem explicação.

(nos termos da amizade)

na voz dalva

e no entanto havia a memória do que nunca houve
no cintilar de todas as faltas naquela canção distante
numa voz dalva para trás de todos os tempos.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Bethânia em dourado vermelho: 50 anos de arte!


Ela é uma voz ordenada a celebrar as belezas que criou.
Acenos para a música em canções que somos nós.
Dicção que formula sonhos e cala nossas agitações.
Mas ela não é e nem pode ser só paz.
É-lhe todo o belo o mais certeiro,
Dança baiana em dourado vermelho
Entre Oxum e Iansã ela rasga como ninguém
O céu quente do Rio de Janeiro.
Quase um canto francês à luz
Deste idioma a se melhorar.
Ela inflama plateias
E o seu voo é de águia
Mesmo que aquática seja
Esta mulher fenda dos ares,
Ela é água: rios e mares...
Sua guerra me assiste
Seu perfume sonoro absorve
Minha percepção
Controla o que ouço
Silencia-me a favor da temperança.
Um Brasil eterno se eleva ali
Na bravura daquele canto
Que eu também quero azul...
A sereia que dança
Lado da mesma criança
Sendo-me a senhora rainha
Que me acolhe no lugar da arte
Onde sempre eu quis existir.

Rio de Janeiro, 11 de janeiro de 2015



sábado, 10 de janeiro de 2015

À espera da águia



Tudo muito lentamente, ainda assim, alguma dificuldade para respirar. Um sol lá fora escaldante, sonhos em brisa aqui por dentro. À espera de Bethânia, com o brilho de Laila Garin/Elis Regina guiando minhas impressões pelas ruas do Rio de Janeiro. O lance é conjugar arte e talento e me principiar em realizações, sem tantas sacanagens alheias em tantas auto-sabotagens minhas. A escrita que me alivia no desejo, mas me alicia na qualidade. Também vou, sempre, contra o vento. Dias do sagrado ócio numa fala para a antropologia e meus relatórios do desprestígio... Retorno ao canto voraz de Bethânia para fazer letra no esconderijo da entrelinha. 

Digo publicamente só para mim. Imagem de olhos fílmicos refletida no Paraguaçu - e eu, sorrateiramente vazio, sozinho, pensamento nele, cantarolo o tema de Macabéa, calçadão de Copacabana, entre Calcanhotto e Bethânia, nasço para o ser que não sou e nunca fui e remonto-me em alegorias antropológicas.

É o deserto do insucesso. A poesia do respingo necessário como migalhas que aborto. Falta de vento frente d'água. Sem saudade do que sou. Sem Salvador na alma. Só os olhos fílmicos na morada sem casa. Nada como pertence. 

Canto da águia - voz meio agonia: renascimentos há cinquenta anos. Eu musgo, mudo de mim, perplexo com o talento da menina quase rica que me chamou de muito pobre, arremedou o inglês que nunca tive, criticou minha cafonice e, maravilhosa, conquistou a Globo, curou-se, talvez, dos danos familiares seus. Minimizou a mãe e ampliou o pai... Melhor: orfanizou-se.

Viajar é bem mais longe quando fazemos descobertas... Nada me retira daqui: visão multicolorida entre saber fazer bem e nunca ter tido como fazer...

Digo só para mim à luz do Facebook - porque mesmo intra-interpretado, quero forçar leituras e imaginários sobre um dos de mim que, mesmo sem dizer, precisa ser lido e deveras compreendido como o dia que precisa anoitecer.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

dois amigos




amanheci com o brilho do dia de ontem todinho em mim;

pra mim o melhor sempre será o mais simples,

radiado de sol à beira mar em janeiro em salvador...

nem sei se carece de trilha sonora;

tem que ter alegria acionando a poesia

que comanda este meu instante no mundo...

estive com dois amigos

sobrevoando a barra

aportado nos sonhos que não me deixam

sendo-me mais leveza menos procura.

um dia de atração e esperança

meu coração criança brincando

daquele outro jeito que me faz feliz...

o jeito no qual não me obrigo a nada

apenas ser encarnado e água

sem padecer ausências, sem clemências

sem lágrimas, sem risadas...

pura leveza...

um dia em salvador, azul

de repente: alegria!

eu vivo em 2015!

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

fb



fiquei imaginando você,

nessa sua cara de galã,

todo grande,

atuando,

a la irandhir santos,

de cueca branca,

chuva nordestina,

filme pernambucano,

diretor e ator,

roteiro certeiro,

mais poesia que narrativa,

cabelos molhados,

lábios mais vermelhos,

mais macho que anjo

e ainda que sob água:

puro fogo brincante.


O vento lá fora


Haveria eu de fazer muitas perguntas
diante das contínuas belezas que traz
o selo carioca Quitanda, dentro da Biscoito
Fino, para a cultura brasileira. Mas, com
o projeto O vento lá fora, com as vozes de
Cleonice Berardinelli e de Maria Bethânia dizendo
poemas de Fernando Pessoa, em imagens
sonoras em preto e branco, me reduzo ao
silêncio contemplativo e a uma espécie de reverência
que se move e aprende através do
delicado resultado que é esta obra dirigida por
Marcio Debellian.

O projeto traz um DVD e um CD que cumprem
a tarefa de recortar a obra do autor à luz
da especialidade acadêmica de D. Cléo (uma
das maiores especialistas em Fernando Pessoa
no mundo) e da récita inconfundível de Bethânia.
O filme nos assenta em nós mesmos:
foi feito para audições individuais, solitárias,
quase secretas. Se há paixão do Brasil por
Pessoa e Bethânia, o Brasil também se apaixonará
pela nonagenária intelectual, imortal
da Academia Brasileira de Letras, Cleonice Berardinelli,
fincada em sua trajetória professoral,
mas artística até a alma e extensivamente
enamorada da poesia que o bardo português
legou ao mundo.

O DVD trata de maestria e de generosidade.
Maestria em Pessoa, em D. Cléo, em Debellian...
Maestria em Bethânia, que se soma à
sua própria generosidade, se emprestando ao
projeto como estrela maior da MPB e que se
faz pequena frente à sabedoria da professora
e, mais ainda, à condição senhorial que os 98
anos da mestra imputam à relação entre as
duas e entre todos os envolvidos na construção
do vídeo.

Mais que aula. O filme é pura poesia em
movimento – lições da fala, da escrita, da dicção,
da inflexão, do silêncio a partir da língua
portuguesa –, absorvendo a quem o assiste pelo
viés da experiência poética, um convite entre
rigor e transe, costurado pela beleza e ventilado
pelas risadas de Bethânia, pelo piano de Bethânia,
pelos cortes de D. Cléo, pelo humor
professoral de D. Cléo e pela edição fílmica
deste encontro. É mimo, como diria D. Cléo...
Um mimo aos ouvintes de Pessoa que entra
assim: “Estou preso ao meu pensamento/ Como
o vento preso ao ar”.

(Publicado no Jornal A Tarde, Caderno Opinião, p.3, em 20/12/2014